série em desenvolvimento, 2016 - atual

 

_

Construídas a partir e dentro do nosso cotidiano, as pinturas surgem através da relação entre performance, fotografia e colagem presente na nossa produção. Ao longo de dois anos, utilizamos nossa própria figura e casa (onde moramos e trabalhamos) para construir as cenas retratadas nas pinturas.


As obras da série parecem se relacionar com a ideia de “pintura de interior”: “interior” enquanto locação (dentro do cotidiano de uma casa), localização (os móveis e arquitetura remetem a uma casa do interior do estado de São Paulo) e interior das personagens. Buscamos refletir sobre a relação do ser humano com o meio e uma outra forma de se observar o que é comum ao cotidiano.
Nossa produção lida com o autorretrato e o aspecto autorreferencial também se expande para os elementos decorativos nas pinturas.

 

Com interesses gráficos e narrativos, as estampas e elementos decorativos sempre estiveram presentes. Estampas e hábitos possuem em comum a repetição de um elemento, sejam eles, respectivamente, de motivos decorativos ou de ordem comportamental, como a repetição de uma ação ou linha de pensamento. Dessa forma, as estampas são uma forma de falar de comportamentos que se repetem e através delas buscamos retratar sentimentos, reações e sensações. Trabalhando com cenas cotidianas, esses elementos e estampas (que geralmente trazem a figura humana) são posicionados em áreas normalmente associadas à estamparia e revestimento.

Fogo Alto, 2017-2016 e Água que fura, 2018-2017

17º Programa Exposições, MARP - Museu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto - SP  Foto: Suellen Nascimento

Queimadura de sol de terceiro grau, 2017-2016 .Coletiva, Auroras, São Paulo - SP   Foto: Ding Musa

Um pouco sobre nosso processo de pintura

Começamos 2013, ano que marca o início da nossa produção, desenhando diretamente sobre a tela – o desenho era mais livre e com menor rigor nas proporções das figuras. A partir das obras Abóbora e Vinho (2013-2014), ao retratar ambientes domésticos sentimos a necessidade de localizar o trabalho dentro de uma noção maior de “realidade”. Para isso, começamos a criar os desenhos para as pinturas a partir de colagens digitais que construíamos com imagens pesquisadas na internet. Quando não encontrávamos uma imagem específica de figura humana, nos fotografávamos e alterávamos a fisionomia no desenho. Nosso trabalho sempre lidou com o autorreferencial mas nem sempre com nossa figura.

 

Entre 2014 e 2015, impulsionados inicialmente por uma necessidade prática, começamos a gerar a maioria das imagens de referência para os desenhos das pinturas. Um fotografava o outro, com objetividade, nas poses desejadas. A série A Trilogia da Realidade começa a reaproximar nossa figura da produção.

 

Em 2016, desejando abordar o trabalho a partir do nosso cotidiano e figura, passamos a ambientar as cenas dentro da nossa própria casa, no interior de São Paulo, onde vivemos e trabalhamos. Desse processo nasceram as pinturas Queimadura de sol de terceiro grau, Fogo alto, Água que fura, Corpo encharcado de óleo e Tapete a três metro do chão.

 

Para gerar as imagens de referência, começava a surgir dentro da nossa produção uma espécie de performance: descobrimos que precisávamos nos entregar verdadeiramente à ação para gerar imagens que transmitissem naturalidade e verdade nos gestos. Configurando a câmera para o modo de disparo contínuo, nos revezávamos entre a performance e a direção-registro das cenas, sempre conversando muito sobre as escolhas e as possibilidades. A experimentação se tornou intensa, nos levando a uma outra compreensão do trabalho a partir desse processo. Para cada pintura gerávamos centenas de imagens, que mais tarde viriam a se tornar a base para a série Para Uma Pintura. Das centenas de registros, algumas fotografias eram escolhidas e combinadas através de colagem digital para criar a cena retratada.

Assim, o trabalho que abordava o cotidiano passou a ser construído dentro dele: no dia-a-dia da nossa casa, nos colocávamos em movimento e a serviço das ideias, performando, pesquisando e explorando diferentes ações, objetos, mudando os móveis de lugar, experimentando ângulos, enquadramentos e narrativas, em busca da representação visual para os conceitos que queríamos desenvolver em cada obra. Esse processo se tornou tão forte que começamos a desenvolvê-lo para além da pintura, através de trabalhos ligados ao desenho, instalação e composição, como os azulejos na pintura Corpo encharcado de óleo.

A relação com o autorreferencial também se expande para os elementos decorativos. Com interesses gráficos e narrativos, as estampas e elementos decorativos sempre estiveram presentes. Estampas e hábitos possuem em comum a repetição de um elemento, sejam eles, respectivamente, de motivos decorativos ou de ordem comportamental, como a repetição de uma ação ou linha de pensamento. Dessa forma, quando criamos as estampas buscamos retratar sentimentos, reações e sensações. Trabalhando com cenas cotidianas, escolhemos posicionar esses elementos e estampas (que geralmente trazem a figura humana) em áreas normalmente associadas à estamparia e revestimento, criando um estranhamento que nos interessa muito. 

.