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TEXTOS

Tangerina Bruno: Estados cotidianos

Na obra mais traduzida de Sigmund Freud, Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, o psicanalista debate como o inconsciente se expressa na nossa rotina por meio de sentimentos comuns, como medo, desconforto, surpresa e atenção. Seu desejo é demonstrar que a psicanálise não se limita ao estudo da anormalidade, mas se dedica a descrever e compreender a mente humana e a transformação que vivenciamos fisicamente mesmo por meio daquilo que apenas sentimos. Nas pinturas do duo Tangerina Bruno, situações rotineiras, enquadradas de forma precisa como frames de uma produção cinematográfica, evidenciam esses sentimentos vulgares, mas que nem por isso são menos relevantes no entendimento da psique humana.

A captura desses instantes pelos irmãos gêmeos Cirillo e Leticia Tangerina Bruno, de 26 anos, retratam o momento de ação da figura que habita a tela. Estão congeladas, sim, mas também em movimento. Passam roupa, gritam em cima de uma cadeira, tomam banho, costuram. É possível receber as vibrações dos gestos dos personagens não só pelo que a cena nos induz, mas também ao nos debruçarmos nas micronarrativas que acontecem em detalhes da tela, pintadas em uma colcha de cama desarrumada ou num móvel que compõem a sala. As situações realistas retratadas em cores vibrantes nos remetem diretamente às pinturas de David Hockney, Alex Katz, Alfred Leslie ou até Edward Hopper. Tais cenas ganham seus epílogos em títulos certeiros, que brincam com provérbios populares, insinuando certo humor e ironia ao reconhecermos (e também desdenharmos) as emoções expostas ali.

Cada obra recebe meses ou até ano das mentes e punhos da dupla nascida em Porto Ferreira, interior de São Paulo. Debruçados ora simultaneamente ora alternados na tela, fortalecem sua própria história em uma mistura inebriante de funções e talentos. Se Leticia traz nas mãos a precisão do hiperrealismo em retratos e autorretratos dos próprios irmãos, Cirillo trabalha a estamparia da produção, que reverberam e atestam as ideias centrais das obras. A empreitada exige as quatro mãos e as duas mentes dos artistas que se transformam em um terceiro elemento, vivo, dono de novas ideias, que produz, pinta e reconta as experiências vividas pela dupla.


Ana Carolina Ralston
Texto para a exposição Estados cotidianos, 2020, na Galeria Kogan Amaro, São Paulo.

TANGERINA BRUNO

AS OCASIÕES DE UM RECÉM-NASCIMENTO

Em As ocasiões de um recém-nascimento (2020), obra inédita feita a quatro mãos pela dupla Tangerina Bruno, somos expectadores de uma cena em curso. Ainda que a pintura apresente contornos claros e bem definidos, ela tenta capturar, congelar uma ação. Numa cozinha, observamos um sujeito (nesse caso, o próprio Cirillo) fazer seu café. Diferentes temporalidades habitam a tela -- entre antes, durante e depois -- e instigam o nosso imaginário. Junto a isso, uma diversidade de minúcias convoca a nossa atenção: estampas meticulosas que simulam diferentes materiais, objetos variados, louças secando, tudo compõe a criação de um universo convidativo e íntimo. A suposta pretensão realista, no entanto, é contestada por detalhes delirantes, como os pequenos personagens humanos que aparecem projetados nos azulejos da parede, ou os pêlos presentes nas gavetas embaixo da pia. Trata-se de uma pintura dotada de humor e perícia, com múltiplas camadas de leitura e uma desconfiança diante da imagem que é própria dos tempos atuais.


Pollyana Quintella
Texto da exposição coletiva Nosso Resto de Real, 2020, ArtRio Online.

A PERFORMATIVIDADE NA PINTURA DE TANGERINA BRUNO

Letícia e Cirillo são irmãos gêmeos nascidos e criados em Porto Ferreira, cidade interiorana de São Paulo, próxima de Ribeirão Preto. A essas duas individualidades, nasce uma terceira, o substantivo próprio do sobrenome de ambos, o qual dá origem a um sujeito artista, uma nova identidade chamada Tangerina Bruno. Por detrás de todo esse mistério até pela interrogação de gênero causada pelo tratamento do sobrenome desses dois – tangerina sendo um substantivo feminino e bruno sendo um substantivo masculino – temos uma pintura gerada por quatro mãos e duas cabeças, como os dois próprios dizem. Essa particularidade faz com que o processo artístico se dê através de muito diálogo, escuta, proposição e convivência. Um processo, que desvia das individualidades egóicas artísticas, abdicando-se em prol de um coletivo, mesmo que de duas pessoas.


A obra de Tangerina Bruno é pautada sobretudo pela pintura, por mais que tenham explorado ultimamente, desdobramentos em outras linguagens como objetos e esculturas. A situação geográfica é de extrema importância, a qual acaba contaminando a temática trazida pelas imagens da dupla. Porto Ferreira, é conhecida por ser a capital da cerâmica artística e da decoração, território onde Letícia e Cirillo iniciaram e atuaram profissionalmente, produzindo e dando cursos nessa área. Esse embrião pode ser notado na pintura através dos elementos ornamentais dispostos e representados nos azulejos, no modo como modulam as figuras – sempre com contornos muito bem delimitados – nas cores chapadas e linhas orgânicas constituindo, de uma maneira bem específica, situações do cotidiano da dupla através do aspecto gráfico da linha. Outro elemento que evidencia o regionalismo do interior é a arquitetura e a decoração representada nas suas casas – alguns elementos como chuveiro, filtro de água, detalhes de janelas, etc; acabam ativando uma memória afetiva de muitas pessoas do interior do estado de São Paulo por serem hábitos e objetos populares do cotidiano destas.


A imagem trazida na pintura, por mais que aproxime da tentativa de representação de corpos, ela se distancia de uma noção de representação de uma certa realidade, isso porque em certos momentos, temos a construção de elementos ornamentais em azulejos, tecidos, e outros objetos dos quais acabam adquirindo uma vida própria, ou às vezes chegam a comentar todos os aspectos subjetivos das figuras humanas. No caso de Corpo encharcado de óleo (2018), temos como figura principal – no primeiro plano – o próprio Cirillo abrindo a torneira do chuveiro, e olhando para cima. Não sabemos se olha para o próprio chuveiro, ou para os azulejos, dos quais ocupam a maior parte da área da pintura (quase 2/3 da tela). Nesses azulejos, podemos notar a representação de uma situação que está suspensa no tempo – não sabemos se é pretérito ou futuro, de qualquer forma, mostra uma situação de um rapaz – ao que indica, o próprio Cirillo –  recebendo um telefonema do qual a notícia o deixa incomodado, ou preocupado diante da interpretação de sua mão apoiada na cabeça. É como se esse “objeto azulejo”, estivesse comentando ou projetando a mente do sujeito – subjetivação do objeto, ou que todos os pensamentos da figura humana representada no chuveiro, fossem projetadas nos azulejos do banheiro, uma espécie de integração entre corpo e arquitetura.
 

Essa subjetivação dos objetos, pode ser evidenciada ao relacionar os processos de produção da dupla Tangerina Bruno. Toda situação representada na pintura, advém, primeiramente de uma série de fotografias ou frames realizadas por eles mesmos. O frame indica, ou aponta para uma certa performance do corpo representado, que fica mais evidente no trabalho Série Para Uma Pintura, 2018, onde Letícia e Cirillo constroem uma paleta de cor partindo das enormes quantidades de fotografias realizadas para a investigação do assunto de sua pintura. Essa performatividade, para além da imagem representada (teatralidade), se torna presente também durante o processo de execução do quadro. Pelo fato de serem duas pessoas trabalhando em prol de um único objeto, é indispensável a necessidade do diálogo para a tomada de decisões, o que torna desviante o processo em comparação com outras artistas. Observando de perto o dia-a-dia no ateliê, pude atentar o constante diálogo dos irmãos referente a qualquer tomada de decisão: desde que figura representar, de que forma, como, qual será a cor, etc. Em alguns momentos, são utilizados até mensagens coladas na própria tela, referindo-se como tags de comentários à cerca da região da imagem. Essas tags vão se acumulando, transformando-se numa caixa de diálogo que ao invés de ser um diálogo somente entre Letícia e Cirillo, passa também a ser um diálogo com um terceiro elemento que é, Tangerina Bruno.


É importante notar também que o diálogo, transpassa para a linguagem da palavra, e aos poucos vai ocupando uma comunicação imagética. No caso do trabalho Água que fura (2017), foram muitas mudanças ocorridas durante o processo, pois cada um trabalha a pintura numa certa região da tela, e tendo a necessidade de enxergar uma totalidade, aos poucos vão se mudando as cores, ou a própria imagem, a fim de integrar um resultado que agrade aos dois – ora, se essa constante dialética que acaba resultando num movimento de mudança da pintura, comunicação com tags, poses fotografadas, não indicam aí, uma performatividade do próprio gesto de pintar, para além de uma imagem somente performativa.
A pintura de Tangerina Bruno, são muitas numa só. Podemos perder o nosso olhar, a fim de procurar uma unidade ou uma única subjetividade – não a encontrará, pois se trata de um corpo coletivo, de um todo disjuntivo. Porém, toda essa situação teatral trazida pela imagem, torna-se mais clara, ao compreender o processo também como obra: essa dialética, essa pluralidade está presente no cotidiano dos dois, tornando a pintura performativa diante de todo seu contexto seja nos frames fotográficos autorrepresentativos, nas tags comentadas durante a pintura, no constante diálogo no processo, ou na subjetivação dos objetos na imagem. A performatividade nesse caso, é de um terceiro corpo, um corpo que ao mesmo tempo são dois, o corpo da (ou do) Tangerina Bruno.


Allan Yzumizawa
 Texto publicado no site O Perceptos

TANGERINA BRUNO

CORPO ENCHARCADO DE ÓLEO

O duo Tangerina Bruno se atenta em representar a partir da pintura, cenas do cotidiano dentro de sua casa. Partindo da fotografia como registro disparador da composição da pintura, Cirillo e Letícia aos poucos vão compondo toda a tenção da cena, atribuindo um processo de subjetivação na arquitetura interna. Em Corpo encharcado de óleo (2018), a figura central de Cirillo, se dissolve através da modulação das linhas das quais compõe os detalhes dos objetos. Além disso, em grande parte da superfície da pintura, nos deparamos com várias cenas de acontecimentos representados nos azulejos, como se fossem retratos de emoções internas que transbordam para o externo. Aqui, corpo-arquitetura transformam numa coisa só.

Allan Yzumizawa
Texto da exposição coletiva Corporific.ações, 2020, Latitude Art Fair Online.

TANGERINA BRUNO

PARA UMA PINTURA

Nenhuma imagem é a obra, numa obra como essa menos ainda. Se é possível ler a imagem da reprodução de uma pintura e a partir dela conhecer as figuras da tela e suas cores, a imagem de uma obra conceitual parece ser menos legível, já que esse tipo de obra pressupõe o estabelecimento de outras relações de recepção. Em “Para Uma Pintura” estamos diante de um objeto estranho à arte: quem imagina que um mostruário guardaria o registro fotográfico de ações e performances? A forma de monstruário em paleta parece aludir ao momento de cuidado de uma casa: quando vamos escolher a cor da parede do quarto novo, ou o tipo de persiana que colocaremos na janela da sala, ou ainda de que cor e material serão o piso e o rodapé da cozinha. Como se cuidar de uma casa fosse deixar vestígios de quem somos, ou fosse desejo de produzir alterações em nossa identidade, carregando o ambiente e os materiais de impressões afetivas e subjetivas.


Os registros que vi de “Para Uma Pintura” são cenas domésticas, se passam em casa. O título do trabalho em relação com o objeto que nomeia produz um desconcerto: escolher a cena e não a cor e a tinta da pintura? O que faz ecoar como uma espécie de duplo do trabalho o tema da pintura de interior: pintar a cena privada e a vida doméstica, a pintura servindo, aí, como uma espécie de voyeurismo da intimidade alheia. A questão do duplo, então, pode ser uma estratégia de ler “Para Uma Pintura”. A partir da relação entre a pintura e a fotografia, a paleta de cor que manuseamos, em vez de guardar a cor da tinta, que é o material que compõe a imagem pictórica, guarda já a imagem pronta, fotografada. Nesse caso específico, saber que o trabalho é feito e concebido por duas duplas de artistas gêmeos intensifica a produção de sentido da obra - além do trabalho em dupla, a experiência de ser gêmeo é uma experiência de duplicidade. Duplicidade, não falsidade. Nesse sentido, o conceito faz diferença. O conceito do duplo retira da obra qualquer intenção moral e desierarquiza os valores. “Quem nasceu primeiro, a pintura ou a fotografia?” passa a ser uma pergunta desimportante para a vida da arte.


Jessica Di Chiara
Texto do catálogo da exposição coletiva Novíssimos, 2019, na Galeria Ibeu, no Rio de Janeiro 

TANGERINA BRUNO

PARA UMA PINTURA

Apresentam-se ainda operações quase opostas ao apagamento das memórias e faces: há a exacerbação do inventário, que origina uma espécie de arquivo-vivo infinito e, ao mesmo tempo, realizam-se operações escultóricas, que fragmentam e expõem o corpo humano em uma relação com o tempo e o espaço. Nos trabalhos de Tangerina Bruno, um cotidiano encenado é extensamente registrado. O duo se utiliza da própria imagem registrada em foto para criar complexas pinturas, cheias de detalhes que parecem remeter a estados de consciência. Tendo como pano de fundo um cotidiano banal, é a própria imaginação dos irmãos que se infiltra nas suas vidas animando e preenchendo com significados seus dias e horas.


Ana Roman e Marcelo Amorim
Texto do catálogo da exposição coletiva Mostra de Arte da Juventude, 2019, no Sesc Ribeirão Preto, São Paulo

TANGERINA BRUNO

PIRUÁ

Piruá, para os não paulistanos que, porventura, desconheçam o termo, é o milho de pipoca que não estourou. Rejeitado por muitos, é desejado por alguns. E, posso garantir, apesar do risco “quebra dentes”, certos piruás trazem sabores especiais a quem tem a “ousadia” de comê-los. 


A obra “Autorretrato” presente na mostra revela ao visitante que a instalação dos gêmeos Tangerina Bruno lida com algo além da experiência lúdica de estourar pipoca e suas reminiscências nostálgicas de infância. Essa doce estória é apenas aparência, como ledo engano vivenciará quem tomar por pipocas reais (prestes a murchar e perder o gosto) as esculturas veristas de argila cromada espalhadas pela dupla pelas paredes e pelo chão do espaço expositivo. Sob uma aparente receita ilustrada de “como fazer pipoca”, Cirillo e Letícia imaginam a receita de “como fazer gente grande”. A personalidade humana, quase sempre, necessita ser forjada a “ferro e fogo” para transmutarse em algo novo e, quiçá, melhor. Se, em alguns momentos, essa metamorfose se opera de forma suave, branda, incidiosa e quase imperceptível; na maior parte das vezes, são necessárias crises líticas sob tempestade espessa de energia e angústia.


Autorretratos são o esboço de uma tijela com uns poucos piruás e grãos de sal, o que sobrou após o desejo saciado dos festivos comedores... O resto é o autorretrato de uma vida, de um personagem, de uma personalidade que lutou por uma vida de momentos felizes e crises transformadoras. O que fica de nós (seja em livros, quadros, fotografias, obras ou memórias frágeis dos vivos que ficaram) são restos... indigestos, lesivos ou extremamente saborosos, mas sempre mera fração imperfeita e inconclusiva, da essência de nosso ser. Mas esses fragmentos dismórficos são o melhor de nós que podemos aspirar legar ao mundo.


Daré

Texto sobre a exposição individual Piruá, 2019, no Centro de Arte Contemporânea W, em Ribeirão Preto, São Paulo